DANIEL MOCELLIN

A cidade mais viva, opinião e gratidão 

 

 

 

 

 
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Hambúrguer, batata frita e cerveja artesanal: o que mais pode se querer?

FOTO: MANA GOLLO


texto: emanuela pinho


Nove de novembro de 2016: os Estados Unidos elegiam Donald Trump como 54º presidente, o mundo digeria a grande novidade e a internet, claro, estava impossível: incontáveis memes sobre o resultado da eleição lotavam os grupos de WhatsApp. No meio da timeline do Facebook, um post: “9 de novembro vai ser lembrado como mais uma quarta-feira que o whatafuck faz bacon free pra galera. O resto é apenas mais uma notícia.”. Era Daniel Mocellin e a irreverência que é um dos principais ingredientes da whatafuck, a lanchonete que congestiona a Vicente Machado desde junho de 2015.

Seu perfil na rede social é movimentado. E assim é também vida do empreendedor de 28 anos, formado em jornalismo, sócio proprietário nas empresas Whatafuck Hamburgueria e Roots Batata Frita & Cerveja. É fácil entender seus gostos: boa comida, boa cerveja, a Ipa (e aqui é a cadelinha e não apenas a variação da bebida), música, bom humor, amigos, praia.

Ele e o sócio Guilherme Requião são parte importante da mudança que se vê na noite de Curitiba: jovens ocupam a calçada com sanduíches em uma mão e copos de cerveja em outra. O movimento, como nos conta Daniel na entrevista, vai enriquecer a noite urbana de outros centros no país em breve. Ótima notícia para nós, que queremos mais é poder encontrar whatafuck também nas viagens!

 

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O que foi mais determinante na sua decisão de trocar o emprego em multinacional pela vida de empreendedor? Qual o maior desafio dessa etapa?

Quando eu era mais novo, dava muita importância para estabilidade financeira e almejava muito trabalhar em uma empresa conhecida. Achava que iria me sentir bem com isso. Mas a rotina diária, a pressão e a competição interna dos outros colaboradores acabaram comigo. Até que um dia, eu fui demitido. Decidi então nunca mais procurar emprego. Abri minha pequena agência de marketing para restaurantes, e decidi fechar ela quando surgiu a oportunidade de montar o whatafuck com um cliente que eu atendia, que acabou virando sócio, que é o Guilherme Requião.

 

O que aprendeu de mais marcante com seus clientes no trabalho de comunicação e branding para empresas de gastronomia?

Aprendi que, no fim das contas, o que importa não é o que você quer fazer para o cliente, nem o que ele deseja. O que paga as contas e traz boa reputação é estabelecimento cheio. Então você precisa trabalhar pensando na pessoa que passa a porta do restaurante, e não no o que o dono do restaurante deseja.

 

Você diz que não tinha, junto com o sócio Guilherme Requião, muito capital para a abertura da whatafuck: “pouco menos que o suficiente”. Não sendo dinheiro determinante para o sucesso de um empreendimento, a que atribui o sucesso da empresa?

Com o sucesso do whatafuck, aprendi que não é dinheiro que vai fazer um negócio ter sucesso. É claro que ele é fundamental, mas no nosso caso, tínhamos juntos mais ou menos 70% do que era necessário. Mas nós somente decidimos investir quando vimos que daria certo. Para isso, foi preciso ter uma idéia muito sólida em todos os aspectos, não desviar o foco e principalmente muito planejamento. Eu e o Gui precisamos conversar muito e decidir o que iríamos servir, para quem, de que forma e por qual preço. Quando estabelecemos isso, decidimos ir com todas as forças nisso.

 

Em 2012, você lançou o livro de fotografias “Bem Vindo A Nova Brasília - A Vida Na Ilha Do Mel”. Que espaço a fotografia ocupa em sua vida atualmente? Podemos esperar novas obras como essa?

A fotografia é algo que sempre fez parte da minha vida. Por parte de mãe, tenho uma família repleta de artistas. Meu avô de sangue era artista plástico. Uma tia minha é uma das melhores profissionais de dança de salão do Brasil. empenhada na área. Minha mãe é redatora e tem quase uma vida inteira dedicada a cultura, ao ensino, e aos livros. Hoje em dia, ela está escrevendo poemas, e também lançou um livro este ano. Agora, está aprendendo sozinha a pintar. O padrasto dela fundou uma editora que está aberta até hoje, com mais de 60 anos. Então, a arte sempre esteve perto de mim. A minha primeira graduação completa foi jornalismo, e lá que eu conheci a fotografia. Mas apesar da cultura chegar até mim por parte de mãe, era meu pai quem tinha uma câmera analógica em casa. Ele me deu e eu comecei a fazer umas fotos. Então, nunca mais parei. No meu TCC, fiz um livro fotográfico a respeito da cultura da Ilha do Mel, que posteriormente eu consegui publicar através do mecenato da Lei de Incentivo à Cultura da FCC. Mas profissionalmente falando, foi a fotografia de comida que me encantou, me trouxe para perto do universo gastronômico. Por causa dela, conheci pessoas incríveis, fotografei (muitos) pratos maravilhosos e de vez em quando até sou convidado para das umas aulas de fotografia de comida. Mas, voltando a pergunta de publicar outro livro, no momento não me vejo com tempo ou dedicação suficiente para escrever ou montar outro trabalho desses, mas com certeza não vou dizer que nunca mais farei. Quero poder ter muita coisa pra contar para os outros e poder ter a oportunidade de transmitir tudo que eu aprendo na vida. Seja nas conversas que eu sempre tenho com os curiosos sobre o whatafuck, seja nas palestras que eu venho sendo chamado, ou até mesmo no formato de um livro. 

 

E o surfe? Como é ser surfista e morar em Curitiba?

Se eu não tivesse o whatafuck e o roots pra cuidar, provavelmente estaria surfando mais hehehe… mas também não vou negar que as lojas são a minha razão de viver e que por elas, até deixo de surfar.

 

Sobre viagens: quais seus destinos preferidos? E há algum local que queira visitar em breve?

Nova York é Nova York. Achei a cidade mais emocionante e mais viva que eu conheci, e tenho vontade de voltar pra lá com freqüência. Gostaria muito de conhecer a Itália, porque uma boa pizza não se nega a ninguém.

 

Sua gratidão aos que contribuíram para o sucesso da sua jornada é notável. Quais as três características que você definiria como essenciais para um empreendedor? 

Me considero uma pessoa muito agradecida, mas nem sempre foi assim. Quando passei a assumir a culpa pelos meus erros, naturalmente passei a acertar mais nas minhas decisões da vida e por consequência, me tornei muito agradecido por tudo. Então, acho que pra ser um empreendedor, em primeiro lugar você precisa ter a certeza de que tudo sempre pode melhorar. Você não é o dono da razão e nem vai conseguir chegar em lugar algum sozinho. Ter muito foco e planejamento também é fundamental. Você sempre deve ouvir as críticas que te fazem, mas precisa ter calma e inteligência pra fazer com que elas afetem de maneira positiva o teu negócio. Eu acho que não pode ter desespero e tentar vender ou trabalhar com tudo só porque o público ou os clientes pedem. Quem vende de tudo é o supermercado, e se você não tem condições de ser assim, não seja.

 

Você afirma que todos os seus funcionários têm toda a liberdade que merecem para poder expressar o que têm de melhor para os clientes. Como você seleciona os colaboradores?

Eu preciso deles mais do que eles precisam de mim. Se eu acabo limitando a individualidade de cada um, talvez eles não consigam dar o melhor de si quando estão trabalhando. Eles são selecionados por própria indicação dos outros funcionários. Muitos empresários preferem não contratar amigos ou conhecidos dos colaboradores por medo de virar bagunça no futuro. Mas nós não temos muitos problemas com isso. Esses tempos andamos tendo umas desavenças, mas foi resolvido. Enquanto estiver dando certo, será o nosso método de escolha.

 

O whatafuck é um dos principais responsáveis pela transformação “daquela quadra” da Vicente Machado. Como você vê o movimento de “retomada das ruas” pelo público? Quais os benefícios dessa dinâmica para a cidade?

A cidade fica mais viva. As pessoas socializam mais, e podem provar comidas novas por um preço mais baixo. Não é todo mundo que tem condição de comer fora de casa toda semana, mas com esse movimento de rua isso se tornou possível. 

 

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9 de novembro vai ser lembrado como mais uma quarta-feira que o whatafuck faz bacon free pra galera. O resto é apenas mais uma notícia.
— Daniel Mocellin
 
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A cerveja artesanal tem espaço de destaque na sua vida, sendo servida em suas lanchonetes desde o início. O que você vê de mais positivo no crescimento desse mercado e como vê o futuro das cervejarias artesanais?

A cerveja artesanal é muito presente na minha vida. Todas elas possuem suas características únicas, além de histórias ricas e até engraçadas. Fiz vários amigos que levarei pro resto da vida por causa da cerveja. Curitiba é uma das cidades que mais consome cerveja artesanal no Brasil. Algumas das melhores fábricas estão aqui. No meu ponto de vista, o crescimento delas não é algo volátil e sim constante, e simplesmente porque são muito mais saborosas que as grandes comerciais. Mas, a partir do momento que se aprende a tomar, a pessoa vai adquirindo carinho e respeito por elas, o que faz com que o produto artesanal e local seja cada vez mais valorizado. (Eu quase toda semana vou na Gauden para bater um papo com os donos e os cervejeiros que trabalham lá. Somos o principal ponto de venda deles em Curitiba e também no Brasil. Quem quiser ir junto conhecer, é só me chamar que a visita é boa e a risada é garantida.)

 

 Se você tivesse 2 horas livres (de verdade!) por dia, o que faria?

Tentaria melhorar os erros do whatafuck e os meus próprios erros também.

 

A observação de novos hábitos e tendências de consumo das pessoas da cidade contribuiu para o sucesso da whatafuck. Como você faz essas pesquisas?

O whatafuck deu certo porque ele é pensado 100% na experiência de consumo. Eu já era cliente da Vicente, e com o whatafuck tentei melhorar algumas coisas que eu mesmo sentia falta. Nossas pesquisas são feitas com nossos clientes mais fiéis e também baseada em todas as críticas que recebemos pessoalmente ou na internet.

 

Como avalia a “gourmetização” que acompanhamos há algum tempo? Você assiste aos programas e seriados de gastronomia? Quais os preferidos?

A gourmetização das coisas é natural. A competitividade aumenta cada dia mais, e cada restaurante aponta pro lado que julga ser melhor. Pra mim é apenas um jeito de melhorar o marketing da comida. Eu não julgo algo tão terrível assim, mesmo tendo dois negócios que vão totalmente ao contrário disso.

Na verdade, não tenho muito tempo de assistir TV. Quando paro na frente da minha, geralmente é pra jogar video game ou pra assistir a jogos da nba.

 

Quais são as pessoas que mais te inspiram?

Meu pai, que me ensinou a respeitar os outros, a dar valor para o estudo e para o trabalho. Meu tio Marcos (que é padeiro, inclusive é quem faz os pães do whatafuck) que tem uma vida inteira na base do trabalho e da simplicidade, e hoje tem uma vida muito confortável, uma família linda com filhos cheios de alegria e de saúde. O bocão (um dos donos da Gauden) é um dos homens mais inspiradores que eu conheço. Cresceu na vida tendo muito pouco, e hoje tem vários negócios por aí, além de ser dono da maior microcervejaria do Paraná. É uma pessoa extremamente humilde, que eu tenho muito respeito e admiração. Por último, o Fabio Muniz, que foi meu primeiro chefe num estágio no laboratório da fotografia da faculdade, e também quem sempre me incentivou a fotografar. Sempre teve muita paciência e respeito comigo. Hoje, tanto eu como ele estamos com uma vida bem melhor. Ele virou professor e coordenador de curso e eu estou com o whatafuck e o roots.

 

Quais os planos para o futuro da Roots e whatafuck?

O roots ainda tá muito novo. Meus planos para ele são fazer com que ele tenha muita saúde financeira e solidez. Para isso, é preciso um trabalho muito incessante de branding e de qualidade dos produtos.

O whatafuck já tá mais grandinho. É aquele filho que dá orgulho de falar. Estamos abrindo em poucos dias nossa segunda unidade aqui em Curitiba, e ano que vem eu e o Gui vamos abrir ele em São Paulo e no Rio. Até 2019, desejamos ter por volta de 10 unidades pelo Brasil.

 

Se você pudesse tomar uma cerveja com qualquer personalidade, com quem gostaria de conversar?

Tem tantas pessoas que eu admiro demais por aí, mas acho que seria com o Al Pacino e o Clint Eastwood, que são dinossauros do cinema e uma das mentes mais notáveis que acredito termos o privilégio de ver trabalhar nos filmes.

 

Quais seus endereços e programas preferidos em Curitiba?

Olha, não é muito difícil de me encontrar na Vicente. Mas eu gosto às vezes de ir comer uma carne no Badida ou no Botafogo. Um churrasquinho aqui na sacada do meu apartamento também sempre rola. Visitar a Gauden e beber uma cerveja direto do tanque também deixa meu dia mais feliz. Essa pergunta também me fez lembrar que eu preciso ir mais na Paradis, porque tem a melhor música da cidade e a galera de lá é extremamente gente fina comigo.

 

Quais seus livros de cabeceira e as músicas que te acompanham no dia-a-dia?

O livro de poesias da minha mãe, chamado “Sozinhes”. Também tenho uns de arte e fotografia do David LaChapelle e do Sebastião Salgado. 

Agora de música, a minha favorita é uma que a galera do whatafuck não aguenta mais eu botar, que se chama Eulogy, de uma banda de hardcore com o nome The Flatliners. Escuto bastante Rise Against e Bad Religion. Kanye West, J.Cole e Kendrick Lamar também sempre estou ouvindo. De música nacional, Criolo e Los Hermanos também é tiro certo.

 

A autenticidade e sucesso dos empreendimentos fez com que Daniel precisasse incluir em seus dias palestras e eventos em que passa um pouco da sua experiência. Em uma delas, decretou: “Não adianta dar a alma para o negócio, ele precisa ter alma própria”. Alma é, mesmo, o segredo do negócio. Que venham muitos brindes com cerveja artesanal!

 
 
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