JOÃO ANZOLIN

Refletir, explorar, curtir

 

 

 

 

 
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“Quando falo de ‘viver criativamente’, entenda que não estou falando de buscar uma vida que seja dedicada profissional ou exclusivamente às artes.." 

FOTO: MANA GOLLO


texto: emanuela pinho


“Quando falo de ‘viver criativamente’, entenda que não estou falando de buscar uma vida que seja dedicada profissional ou exclusivamente às artes. Não estou dizendo que você precisa virar poeta e ir morar no topo de uma montanha na Grécia (...) ou vencer a Palma de Ouro em Cannes (...). Não; quando falo de ‘viver criativamente’, estou falando de maneira mais ampla. Estou falando de viver uma vida mais motivada pela curiosidade do que pelo medo. E, embora os caminhos e os resultados da vida criativa variem muito de pessoa para pessoa, uma coisa eu garanto: uma vida criativa é uma vida mais ampla. É uma vida maior, mais feliz e muito, muito mais interessante. Viver dessa maneira – contínua e obstinadamente trazendo à tona as joias escondidas dentro de você – é uma arte em si.”

O trecho é de Elizabeth Gilbert em “A Grande Magia”, uma obra inteiramente dedicada à criatividade, à coragem, à curiosidade e a uma vida mais ampla e completa.

Muito nesse livro me fez lembrar a dedicação de João Anzolin à criatividade. Ele, que é um maker altamente inspirador, faz a sua parte (e muito mais) para contribuir com o desenvolvimento da cidade de Curitiba e de seus habitantes. Arte, tecnologia, economia criativa e empatia são agentes da transformação em que João acredita: uma mudança significativa na vida da cidade que acontece quando os cidadãos, empoderados, comprometem-se com o bem comum. Junto com os sócios, João criou o Festival Subtropikal, com conceito e manifestos que são uma verdadeira lição de cidadania, respeito, criatividade e generosidade.

Curitiba já pode comemorar: nos planos de João para esse ano estão, entre outras coisas, entregar a segunda edição do Festival Subtropikal ainda melhor do que a primeira! (Falta muito para agosto?!)

 

Como foi para você migrar do “sisudo” meio do direito para as áreas criativas em que atua hoje? O que diria para pessoas em situação semelhante, mas com inseguranças sobre a mudança?

Foi um processo difícil. Me envolvi com o mercado da música eletrônica ainda na faculdade escrevendo para sites e revistas deste cenário e com o passar do tempo observei algumas oportunidades de comunicação na área. Me formei em 2005 e exerci atividades jurídicas durante alguns anos e até tomar a decisão de abrir a Hot Content (agênciaespecializada na criação de conteúdos da qual sou sócio) em 2011 foi necessário lidar de frente com as dúvidas, pressões e expectativas (próprias e de familiares e colegas). Isso exigiu muita paciência e reflexão, e o apoio da minha sócia foi decisivo neste processo. Pode parecer clichê, mas acredito que uma viagem (de preferência pra longe) pode ajudar muito quem passa por uma situação parecida; particularmente tive esta chance e foi fundamental pra que eu pudesse enxergar possibilidades e situações que não conseguia perceber.

 

Se não tivesse estudado Direito, qual formação universitária escolheria? 

Comunicação ou Ciência Política.

 

Qual foi o processo de concepção do Festival Subtropikal?

A Hot Content me possibilitou conhecer e trabalhar em muitos festivais e conferências relacionadas a música dentro e fora do Brasil, e desta vivência e da vontade de ver um evento que envolvesse diferentes segmentos criativos de Curitiba que surgiu o Subtropikal. Depois de meses de pesquisas, estudos e muita conversa chegamos (eu e meus sócios) no formato do festival e convidamos oito pessoas de áreas distintas pra participar da co-criação do festival - elas foram imprescindíveis pra montar a programação e colocar o evento em marcha. Em maio apresentamos um evento na Ópera de Arame pra que as pessoas entendessem melhor a proposta do festival, e em agosto entregamos uma semana de programação. Toda a agenda do Subtropikal é orientada para a exploração, reflexão e diversão na cidade, e dividimos isto em três módulos. O “Explore” instiga as pessoas a conhecerem melhor o lugar onde vivem, e em agosto tivemos quase vinte oficinas e workshops em diversos espaços criativos, projeções em fachadas de edifícios da região central e a pintura de um grande mural no Moinho Rebouças. O “Reflita” trouxe dois dias de fórum de discussão no Teatro do Paiol e busca estimular a reflexão e o debate sobre a cidade e a criatividade. Finalmente, o “Curta” envolve aproveitar as possibilidades urbana, e fizemos uma festa de encerramento na Ópera de Arame pra celebrar tudo isso da melhor maneira.

 

O que foi mais incrível para você na primeira edição do Subtropikal e o que gostaria que fosse diferente na próxima?

O melhor foi constatar que Curitiba vive um momento criativo excepcional ainda mais intenso do que eu imaginava - e o festival se mostrou um ótimo espaço pra catalisar isto. Artistas com diversas bagagens, músicos, designers, profissionais da moda, fotógrafos, produtores de vídeo, coletivos, espaços colaborativos: tem muita gente talentosa vivendo aqui e tem ainda mais gente querendo participar e se envolver de forma diferente com a cidade. É normal ouvirmos de pessoas que visitam o Rio ou São Paulo sobre coisas e lugares legais que acontecem/estão por lá, mas ainda melhor é alguém se surpreender com o que acontece por aqui mesmo e o Subtropikal proporcionou isso algumas vezes. Já a única coisa que eu gostaria que fosse diferente é o tempo: choveu muito na semana do festival e isso nos obrigou a mudar algumas coisas da programação, assim como atrasou a entrega do mural.

 

Quais os feedbacks de participantes do Subtropikal que mais te tocaram? Como acha que o poder público pode ajudar a catalisar essa mudança na vida das pessoas através da criatividade e conexões? 

É sempre gratificante ouvir elogios e feedbacks de pessoas que gostaram do seu trabalho e com o festival não foi diferente. Entretanto, o que mais me sensibilizou mesmo foi perceber as conexões reais que aconteceram naquela semana e depois dela. Seja no fórum ou nas oficinas, na pintura do mural ou na festa da Ópera, tivemos uma grande quantidade de pessoas que viveram Curitiba de uma forma melhor e conheceram espaços, outras pessoas e ideias novas através do Subtropikal . O poder público pode ajudar abrindo seus espaços da forma mais facilitada possível, se mostrando aberto ao diálogo com todos que buscarem seu apoio e propondo ações educativas e que dêem apoio e visibilidade para a produção artística local. A gestão atual da Fundação Cultural foi excepcional neste sentido, vamos torcer pra que a próxima siga o mesmo caminho.

 

Como foi a seleção de marcas locais  para o bazar do Subtropikal “criativos e marcas que você não pode deixar de conhecer”?

Fizemos uma pesquisa ampla com marcas e profissionais locais auxiliados pelos co-criadores do festival, e selecionamos algumas pra participar do bazar que aconteceu em maio na Ópera. Foi feito um trabalho de “garimpo” minucioso e ficamos surpresos ao encontrar tantas marcas excelentes na cidade – foram tantas que infelizmente nem todas puderam participar, já que as vagas eram limitadas. Teríamos uma segunda edição dele em agosto, mas mesmo com um espaço coberto o volume de chuva foi tão grande que inviabilizou sua realização. Pra edição de 2017 o bazar terá uma atenção especial e muitas novidades.

 

Como acha possível que a transformação proposta pelo festival atinja uma parte da população que hoje não tem acesso a eventos culturais, arte, criatividade, música de qualidade?

Uma das premissas do Subtropikal é deixar legados materiais e imateriais para a cidade e que impactem a maior quantidade possível de pessoas. Um mural pintado por artistas locais em pleno Rebouças dá nova vida ao bairro e chama a atenção de todos que passam por ali para os nossos valores culturais. Tivemos oficinas e workshops gratuitos, assim como um espaço montado no Moinho Rebouças com atrações musicais e a pintura ao vivo do Mural (o que foi prejudicado pela chuva). A ideia é ampliar a programação gratuita a cada ano pra atingir mais e mais pessoas.

 

Como você descreveria a cena de música eletrônica em Curitiba atualmente? E no Brasil?

Curitiba sempre teve uma cena eletrônica forte: a cidade foi uma das primeiras a receber raves e a ter clubes voltados especificamente pra este estilo nos anos 90, e hoje é um dos principais cenários do país. Temos uma cena fortíssima que já chama atenção fora do país: este ano o Beatportal fez uma matéria selecionando a cidade como um dos novos pólos mundiais do gênero. Todos os fins de semana tem alguma festa boa acontecendo nos clubes e em outros espaços da cidade, e além de artistas internacionais visitando a cidade temos DJs e produtores locais extremamente talentos. O Brasil passa por um momento similar, mas acredito que enquanto em Curitiba temos mais qualidade, no Brasil há mais quantidade.

 

 

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Deixar o carro de lado sempre que possível. Caminhar, andar de bicicleta ou optar por qualquer meio que não o carro te oferece um olhar novo sobre a cidade
— João Anzolin
 
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Quantas tatuagens você tem?

Pergunta difícil hehe, como muitas delas se misturam e estão próximas umas das outras confesso que parei de contar!

 

Que som tem tocado mais na sua playlist ultimamente?

Bonobo (projeto do inglês Simon Green) não sai da minha playlist nunca, e a boa notícia é que tem álbum novo dele vindo em janeiro! Projetos como Tycho, Bibio e Bob Moses fazem música eletrônica acessível e que caem bem sempre em qualquer ocasião. O Subtropikal tem um perfil no Spotify com playlists muito legais pra todos os gostos, quem quiser seguir é só buscar por Festival Subtropikal (link https://open.spotify.com/user/festivalsubtropikal).

 

Se você fosse fazer uma festa e pudesse convidar três personalidades, quem seriam?

Tenho a sorte de ter amigos capazes de fazerem qualquer festa imbatível, então eu se fosse pra convidar personalidades seria pra bater um papo e trocar uma ideia. Fico imaginando que o físico Michio Kaku, o empresário Elon Musk e o jornalista inglês Adam Curtis renderiam algumas horas de conversas muito interessantes.

 

O que espera realizar em 2017?

Conhecerpelo menos um lugar inédito (se possível dentro do Brasil mesmo) e entregar uma edição ainda melhor do Subtropikal! Também espero conseguir dar início a dois projetos novos que estão engavetados há alguns anos.

 

O que faz para manter a saúde do corpo e da mente?

Corro pelo menos duas vezes por semana (normalmente na rua mesmo ou no Parque Barigui) e isso ajuda em ambos. Ler e viajar são ótimas terapias também.

 

Quais são as três atitudes mais simples que você acredita que, se todos colocassem em prática, melhorariam consideravelmente a cidade em que vivem?

Em primeiro: deixar o carro de lado sempre que possível. Caminhar, andar de bicicleta ou optar por qualquer meio que não o carro te oferece um olhar novo sobre a cidade. É natural que na correria da rotina as pessoas fiquem presas nos carros, mas você acaba abdicando de realmente viver, além de  perder a oportunidade de ter contato com pessoas, lugares e experiências que muitas vezes estão na própria vizinhança. Sair da bolha e descobrir os bairros e locais fora dos eixos que estamos acostumados a transitar. Muitas pessoas limitam Curitiba aos bairros centrais e ignoram que ela é uma cidade espalhada com inúmeras opções interessantes de programas por todos os lados. Uma visão macro sempre nos abre possibilidades. Em segundo, acho que todos devemos nos comprometer mais em torno do senso de comunidade. Oferecer algo em troca para a cidade, adotar posturas em prol do todo, ter em mente que se envolver pra uma vida melhor em conjunto é um caminho que se compartilhado pode melhorar a vida de muitas pessoas. Em terceiro: praticar a empatia diariamente. Na portaria do prédio, com os vizinhos, no trânsito: tentar entender os lados e as realidades dos outros é capaz de promover grandes transformações com pequenas atitudes.

 

Quais as três contas de Instagram que você indica para seguir?

@dailyoverview: fotos aéreas imbatíveis

@petitesluxures: erotismo minimalista

@simmetrybreakfast: fotosimpecáveis de café da manhã – ideais pra quem sofre de TOC

Quer resolução de ano novo melhor do que passar a enxergar o mundo de outra forma, oferecer algo em troca para a cidade e incluir a criatividade e senso de comunidade na vida?  Obrigada, João.

 

“Um estereótipo persistente da criatividade é o de que ela enlouquece as pessoas. Discordo. Não expressar a criatividade é que enlouquece as pessoas.” (GILBERT, 2015).

 

 
 
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