ZÁ CARNEIRO

Apaixonada pela vida.

 

 

 

 

 
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Elza Carneiro, mais conhecida como Zá. Cresceu pelos corredores do hospital infantil Pequeno Príncipe, e sempre viu nesse lugar uma fonte de aprendizado e inspiração.

FOTO: MANA GOLLO


texto: ANNA AMARAL


“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”: uma das frases mais emblemáticas de Antoine de Saint-Exupéry, no clássico infanto-juvenil “O Pequeno Príncipe”, teve grande impacto na vida da curitibana Elza Carneiro, mais conhecida como Zá. Ela cresceu pelos corredores do hospital infantil Pequeno Príncipe, e sempre viu nesse lugar uma fonte de aprendizado e inspiração.

 

Depois de terminar a faculdade de Direito, estudou culinária na escola francesa de culinária Le Cordon Bleu e foi em busca de uma identidade afetiva proveniente dos alimentos. Hoje, une todas essas paixões em projetos culturais que buscam melhorar a condição de vida das crianças do Hospital Pequeno Príncipe e tornam sua vida cada dia mais completa.

 

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Você se formou em Direito, mas é muito envolvida com cultura e filantropia, como surgiu esse interesse?

Sempre estive envolvida com o Hospital Pequeno Príncipe porque a minha avó é Presidente da Associação e a minha família está envolvida com o local há mais de 50 anos. Durante a faculdade de Direito, sempre fui apaixonada por culinária e tudo que permeava a identidade relativa aos alimentos. Fui estudar Gastronomia na França e comecei a trabalhar com projetos culturais, apoiados pela Lei Rouanet. O Direito é uma ferramenta para tornar viável o escopo de um projeto que é muito jurídico no core da ideia, seja ligado a comida ou não. Comecei a minha carreira com a área cultural trabalhando no Museu Oscar Niemeyer (MON), me envolvi com alguns projetos no café do museu, e com a importância do que era servido lá ligado perante a história do Paraná e ao acervo do local. Hoje eu trabalho com projetos que beneficiam o Hospital Pequeno Príncipe e escrevi um livro sobre culinária, o Comida de Afeto, que também tem um documentário no mesmo tema.

 

Como funciona o seu trabalho com o Pequeno Príncipe e com as crianças do hospital?

Trabalho na gerência dos projetos da Lei Rouanet, buscando novas ideias e coordenando a execução dos projetos para enquadrá-los na lei. Durante o projeto do Comida de Afeto, eu fazia oficina de culinária com as crianças e isso me proporcionou um aprendizado enorme. As pessoas têm ideias de que hospital é um lugar muito triste e no hospital de crianças é o contrário: é um lugar de renovação de esperanças. Cada gesto, seja em oficinas ou trabalhos em grupo, interferem de maneira positiva determinante na vida dos envolvidos. Chega uma criança índia que traz para nós diversas referências que não temos, desde a língua até uma paisagem, uma comida ou uma forma de ver o mundo. Mas o mais importante é entender que, no fim das contas, todas elas são simplesmente crianças.

 

 Fale um pouco sobre o projeto Comida de Afeto?

O Comida de Afeto trata das memórias que situam as pessoas nos seus vários momentos da vida por meio do paladar, eu e a Luciana Moraes, Doutora em história da alimentação no Brasil, utilizamos de uma linguagem bem acessível entrevistando pessoas e conversando sobre histórias e receitas. Os entrevistados foram desde chefs, como Claude Troisgrois até crianças, e tudo foi organizado de uma maneira gostosa de ler, mostrando como a comida traduz a história das pessoas e traz aconchego. Outro ponto foi mostrar como isso é relevante em um hospital pediátrico, onde as pessoas  estão em uma situação de vulnerabilidade e a comida faz com que elas se sintam em casa, independente de onde estejam.

 

Qual é a sua comida de afeto?

Tenho muitas comidas de afeto, mas a primeira que me vem a cabeça é uma macarronada da minha avó, lembro até da máquina de abrir a massa. Quando era pequena também fui muito para a Bahia, onde meu pai tinha uma fazenda de coco. Lembro dessa relação manual da comida, de abrir a fruta e comer com as mãos. No hospital, o creme de milho é uma das comidas mais marcantes, porque é muito versátil e atende a muitas dietas específicas. No Pequeno Príncipe, o creme de milho é produzido lá e esteve presente em momentos muito alegres da minha infância.

 

 
 
Eu tenho a felicidade de trabalhar em um lugar que por meio das crianças traz a necessidade de garantir dignidade para elas, seja a partir de qualquer projeto cultural
— ZÁ CARNEIRO
 
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Tem algum novo projeto em vista?

Meu próximo projeto é um livro, em parceria com a Fundação Saint-Exupéry, que fala sobre a literatura de Saint-Exupéry e o simbolismo que ele utiliza relacionado aos jardins e à infância. Eu escrevo sobre jardins e hortas históricas e a relação que isso se faz com figuras históricas brasileiras e francesas. Assim, o Direito, a cultura, a filantropia e a culinária se transformaram em uma coisa só na minha vida, uma colaborando com o desenvolvimento da outra.

 

O que é filantropia pra você?

O termo filantropia em si é muito fechado e muitas vezes as pessoas confundem filantropia com caridade. Não é caridade, a gente tem um trabalho de assistência e garantia de direitos sem finalidade lucrativa. Hoje no Brasil está começando a haver um despertar de que quando você tem um dispêndio de tempo relacionado a esse sentido, isso é um investimento social que requer retorno. Por isso, temos um trabalho gigante na prestação de contas, em demostrar aos parceiros qual é esse retorno. Temos oficinas de teatro, algo que muitas crianças nunca viram na vida antes de vir para o hospital. Elas também participam de leituras de Shakespeare e isso é determinante para mudar a vida delas, para que elas se sintam parte de uma identidade cultural.

 

O que te inspira?

Hoje tem um conjunto de coisas que tornam meu trabalho significativo para mim. Eu tenho a felicidade de trabalhar em um lugar que por meio das crianças traz a necessidade de garantir dignidade para elas, seja a partir de qualquer projeto cultural. O que me move é me sentir participante de uma causa, que entra na minha formação jurídica como uma questão de democracia.

 

O que te faz feliz?

Muitas coisas, mas eu acho que me sentir plena no trabalho que eu realizo e poder equilibrar isso com bons momentos em família ou com amigos, com quem eu possa simplesmente cozinhar.

 

 

 
 
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